As vinculações entre a literatura regionalista e as peculiaridades de uma determinada região manifestam-se, para além da representação de uma realidade marcada pelo subdesenvolvimento[1], num quadro sintético ficcional que por vezes expõe o processo de formação social de uma comunidade representada.
É bem verdade que esse quadro, na literatura brasileira, não se constrói com o mesmo detalhamento em todas as obras com temática regional. Com isso quero dizer que não há só um regionalismo na literatura brasileira. Há regionalismos. Esta concepção acompanha, em parte, o pensamento de Viana Moog[2], cuja tese das diversas literaturas no Brasil coincide com a teorização das correntes regionalistas. E é numa dessas ramificações que se encaixa a literatura de Bernardo Élis, quase toda uma representação do sertão goiano. Aqui está em questão o romance O tronco. Parto da sua estreita proximidade com os fatos reais, para chegar a uma conclusão que leva em conta as peculiaridades espaciais da narrativa. Esse é o elemento que ganha uma envergadura literária neste romance de Bernardo Élis. Como a obra é a própria consciência política do autor, ficou-lhe difícil justifica-la literariamente em relação à sua verossimilhança externa. A explicação inicial pouco convincente diz:
Tirantes os pormenores, os fatos centrais desta narrativa aconteceram realmente em Goiás.
Os personagens, entretanto, tendo tudo de comum com o tipo social que representam, são fictícios. O autor não quis retratar ninguém, nem copiar de nenhum modelo vivo ou já falecido.
Qualquer semelhança com pessoa viva ou morta é mera coincidência.
Basta uma pergunta para expor a contradição na nota do autor: como “os fatos centrais” de O tronco podem ter realmente acontecido em Goiás, se “os personagens... são fictícios”, concebidos pelo autor que “não quis retratar ninguém, nem copiou de nenhum modelo vivo ou já falecido”? Para ser sustentada essa verossimilhança que Bernardo Élis aponta em seu texto, é razoável considerar que as personagens tenham uma pequena parcela de proximidade, ao menos, com as pessoas que viveram os fatos na vila do Duro. Bernardo Élis admite a veracidade dos fatos, mas não admite a das personagens, como se fosse possível haver ações sem agentes. Logo, a aparência de ficção apresentada pelo autor na nota prévia ao romance fica inválida ao ser comparada com o que a narrativa constrói. Não significa, porém, que O tronco seja historiografia disfarçada de ficção. Mas também não é difícil perceber que a proximidade estabelecida com “os fatos (que)... aconteceram realmente em Goiás” retira ao romance a possibilidade de ter uma narrativa mais fluída, sem tantos atropelos no encadeamento das ações, ocorridos, com certeza, para “atender” ao anseio de tornar a ficção uma forma de passagem da história.
Guardadas as incoerências de O tronco, creio ser possível apontar nele construções narrativas ficcionais que, com base em fatos históricos, reconstroem a estrutura de poder vigente no norte de Goiás, no início do século XX. Ainda é possível, também, como conseqüência dessa estrutura, enumerar alguns fatores desenvolvidos na narrativa que ajudam a entender aspectos da formação social dessa região goiana. Por fim, interessa-me estabelecer um paralelo entre a ordem social vivida na região do Duro e a ordem narrativa construída em O tronco.
A vila do Duro está situada numa região que, à época, era de difícil acesso, mesmo que seja considerada lugar de passagem na conexão entre o norte e o centro do país. Desde o período colonial utilizou-se esse caminho para o transporte de mercadorias, bem como para a comunicação entre as regiões Norte de Centro do país. Goiás, antes de sua decadência econômica, ocorrida com o declínio da exploração do ouro, tinha uma população expressiva em relação à sua localização no centro do país, embora tenha sido um período relativamente breve.[3] Distante da capital, homônima ao Estado, a vila do Duro recebe um tratamento na narrativa de Bernardo Élis que realça essa condição geográfica. Tamanha é a importância do espaço para O tronco, que, na segunda edição de 1967, figura uma planta baixa da vila com as construções existentes no início deste século, acompanhada de legenda com os nomes dos habitantes ou a utilidade da construção em caso de uso público. Figura também um mapa sintético do caminho percorrido, entre a capital do Estado e a vila do Duro, pela comissão.
O tronco é, diferentemente do que se espera do título, a história do conflito armado na vila do Duro, entre os jagunços do coronel Artur Melo e os soldados enviados à vila pelo governo estadual, a fim de, chefiados pelo juiz Carvalho, apurar os fatos referentes ao inventário de Clemente Chapadense, manipulado pelos Melo, no intuito de tomarem posse das terras e gado que deveriam ficar para a viúva. O confronto armado acontece em dois espaços fundamentais para a narrativa: Duro, propriamente, e Grota, propriedade do coronel Pedro Melo. Anterior ao conflito entre o poder coronelista e o poder judiciário, o inventário é objeto de manipulação dos Melo no âmbito judiciário local, a fim de favorecê-los. Os desencontros entre Artur Melo e Vicente Lemes, o coletor, que recusa o que estava sendo posto no processo, transcorrem ainda nos limites da vila. As longas exposições do narrador onisciente começam a impor à leitura uma marca fortíssima da espacialidade nesse romance de Élis. Da perspectiva de Vicente, Duro se apresenta calmo, porém a tranqüilidade aparente já está demonstrada pela “desconfiança” do coletor diante daquele mundo pequeno mas sujeito às ofensivas do coronelismo. “Daí foi (Vicente) a sala, de onde de nova olhadela para o Largo. Tudo ia calmo, o solão esparramando nos telhados. Avaliava bem a espécie de inimigo que tinha pela frente.”[4] A vida pacata das personagens era o oposto do que se tornaria a vila, após o impasse em relação ao inventário de Clemente.
Os habitantes do Duro, quase todos, estão sob a tutela do coronel Pedro Melo e seu filho Artur Melo. Esses, que se indispondo politicamente com integrantes do partido democrata e candidatos à presidência do Estado, passaram a sofrer a represália dos coronéis que mantinham um poder mais amplo, principalmente Antônio Ramos Caiado (ou Totó Caiado). Isolado no norte do Estado, os Melo, principalmente Artur, vão se ver diante de intenções do judiciário local contrárias aos seus interesses, mas apoiadas pelo novo governo estadual. A disputa de poder, portanto, é uma disputa também pelo espaço, que acaba dando a medida da força política dos coronéis. Se o embate político não foi favorável para Artur Melo nem no Rio de Janeiro nem em Goiás, capital do Estado, restou-lhe refugiar-se no norte, a fim de manter, pelo menos, o poder em sua região.
Com esse percurso pela história ainda no primeiro capítulo do romance, Bernardo Élis pouca concessão faz à ficção. Ela estaria por se manifestar com mais intensidade no momento da cisão entre os representantes da fazenda estadual e do judiciário, Vicente Lemes e Valério Ferreira, e Artur Melo. Como coletor, Vicente era funcionário de confiança de Eugênio Jardim, correligionário a quem os Melo faziam oposição, após a revolução de 1909. Se Vicente Lemos era homem de confiança do poder central do Estado, ao atuar na vila do Duro, estaria sujeito aos mandos de Pedro e Artur Melo, pai e filho que não admitiam a interferência de outro poder “estranho” à sua região. Acaba que a expressão de poder se manifesta em grande parte pela demarcação espacial. O poder dessa oligarquia no norte de Goiás está dentro do modelo coronelista identificado por Raymundo Faoro: “A origem de seu poder (dos coronéis), mais do que a situação econômica, deriva do prestígio, da honra social, tradicionalmente reconhecido.”[5] Os Melo mantinham uma tradição de mando no norte, anterior ao domínio dos Caiado, vitoriosos em 1909. Além de antiga, ela, antes de eles serem oposição ao governo estadual, era também ampla: “O prestígio deles era incontestado desde Pirenópolis até Boa Vista” (O tronco, p.7) “Empurrados” politicamente para os limites da região norte, os Melo, para se reorganizarem e manterem o poder na ordem da sucessão familiar, lançam mão da apropriação indevida de patrimônio alheio, a fim ampliar o poder econômico e reafirmar o poder político. O prestígio, uma das sustentações do coronelismo, estava sendo negado em nome do cumprimento da lei. A indisposição de Vicente Lemes, com o apoio do juiz Valério Ferreira, em aceitar o inventário de Clemente Chapadense, manipulado por Artur Melo, gera o conflito central da narrativa. O problema que vai nortear a luta armada entre os Melo e a milícia estadual, apoiada pelos representantes legais do poder executivo e judiciário, sintetiza-se principalmente na disputa pela terra, cuja posse já é expressão de poder no sertão goiano, à época.
Antes, porém, da luta em si, o conflito possibilita o deslocamento da comissão, especialmente nomeada pelo governo estadual, a fim de resolver o impasse entre os Melo e o poder legal na vila do Duro. Chefiada pelo juiz Augusto César Carvalho, a comissão em Goiás é anunciada como uma força do poder estadual com o objetivo de resolver a pendência quanto ao inventário em andamento. Se na capital do Estado seu objetivo era claro, o de fazer justiça no impasse gerado entre o coronelismo e a coletoria estadual, na vila do Duro propriamente, a justiça do juiz Carvalho faz-se com base em outros princípios que não os da balança de olhos vendados. Ou seja, o juiz verá na situação uma oportunidade única de ganhar prestígio com o governo do Estado, mesmo que suas atitudes fossem contrárias ao princípio básico da República, praticar a justiça com base nas leis, evitando a todo custo o conflito que gere a luta física entre as partes.
Daí, o deslocamento espacial da comissão, saindo de Goiás rumo à vila do Duro, ser acompanhado de uma mudança de sentido dos objetivos a ela atribuídos pelo governo.
Pelas serranas e pelas bocainas o piraí estalava e os burros gemiam, levando no lombo pisado os costais de mantimentos, roupa de cama, trem de cozinha e munição. A serra do Jaraguá com suas matas ricas ficou para trás; o rio Maranhão com sua caudal soturna foi transposto. Pelos caminhos do sertão, incertos caminhos cortados no mato ou no cerrado, a caravana avança sempre, ao sol e ao sereno. No deserto sem fim, as cidades e povoados são minúsculas ilhas distantes uma das outras dezenas de léguas. Os sítios ou fazendas, quando existem, são como navios perdidos no ermo. (O tronco, p.55)
A dificuldade do caminho passa a incorporar a dificuldade de cada integrante da comissão, tornando o objetivo principal dela mais “condescendente” com os interesses pessoais. Construída essa moldura em que não se distingue o que é da ordem pública e da ordem particular, a comissão já chega à vila em parte descaracterizada em seus fins. Guardando as peculiaridades de cada parte, semelhante ambigüidade ocorre como o coronelismo. “O coronel utiliza seus poderes públicos para fins particulares, mistura, não raro, a organização estatal e seu erário com os bens próprios.”[6] A arbitrariedade empregada pelo juiz Carvalho, inicialmente, e depois pelos próprios oficiais da milícia, a fim de conseguirem a vitória contra a jagunçada dos Melo, os aproximava consideravelmente da polêmica dos coronéis. Há, portanto, uma equação determinando o poder no sertão: quanto mais distante do governo central, maior o desmando de quem ali, por determinação constitucional ou pela força econômica e política, atua em razão de manter a ordem social que lhe convém. Com isso, a convivência entre o poder no governo central e o poder no sertão, na perspectiva da narrativa de Bernardo Élis, é suportável desde que os limites de influência não sejam desrespeitados. A milícia, que deveria representar os interesses da coletividade estadual, nega esse princípio elementar, a fim de atender aos interesses particulares. O que é poder constituído para atuar em qualquer parte do Estado, iguala-se ao poder econômico ou de prestígio, reconhecendo na práxis a força política do coronelismo. Da sua parte o coronelismo “investe” contra a tropa militar, desejoso de manter o poder em seu território. Aliado ou não do governo instalado na capital, o coronel que adquire a ascensão político-econômica num território, tentará mantê-lo a qualquer custo, constituindo-se, tanto quanto um coronel que se opõe a política central, num governo paralelo ao governo reconhecido constitucionalmente. Essa convivência de poderes está sujeita a abalos constantes, como demonstra o fato ocorrido na vila do Duro.
Do conflito entre governo central e “governo” regional, agora mediado pela firmeza do coletor no cumprimento de sua função, o embate evolui para o enfretamento entre soldados e jagunços. Após o descumprimento, por parte do juiz Carvalho, do acordo feito com Artur Melo, atitude que redundou na invasão do sítio da Grota, o que era uma intenção judicial, amparada por uma milícia, ganha a dimensão de uma luta armada que passa a ter outros objetivos que não o de manter a ordem social, segundo o entendimento do poder judiciário. O conflito se veste de outros matizes e o que era uma luta de poder entre o norte de Goiás e o governo central, passa, em boa medida, a ser uma luta pela ocupação da vila. Abandonados pelo juiz, a quem Vicente Lemes depositara grande confiança na solução do caso, que seria rever o inventário acrescentando os bens de Clemente Chapadense que foram apropriados indevidamente pelos Melo, os oficiais e os soldados passam a resguardar a vila do Duro do iminente ataque. À medida que o tempo passa, a razão de estar ali vai perdendo o seu sentido, ao mesmo tempo que os objetivos individuais vão ganhando importância.
Como aconteceu em Boa Vista, vila também do norte goiano, o temor do massacre toma conta de todos, até mesmo de familiares dos Melo. A luta pelo espaço de prestígio, a vila do Duro, é a última conquista do coronel Artur Melo para impor a sua superioridade na região. Com a invasão e vitória dos jagunços, Vicente Lemes e outros aliados civis fogem, deixando na vila mulheres e crianças. A partir daí, há uma desagregação social na região, pois permanecer nela depois de se opor à política de mando da oligarquia, seria decretar a própria morte. Conseqüentemente, a organização social na área do coronelismo depende em boa parte do poder exercido pelos coronéis.
Por fim, gostaria de pôr em foco a proximidade aos fatos da narrativa de O tronco. Bernardo Elis tinha em mãos uma pesquisa que lhe renderia um texto historiográfico, sem qualquer preocupação literária. Mas ele optou pelo romance. Essa opção acaba por trazer-lhe a difícil tarefa de tornar os fatos reais em ficção. O autor goiano poderia ter escolhido um episódio de todo embate; talvez a reconstrução dele gerasse uma narrativa que aprofundasse, por exemplo, o perfil de algumas personagens. Optar pelo relato horizontal e linear dos fatos possibilita a Bernardo Elis uma restrita margem literária. Como apontei, o espaço seria uma categoria narrativa que, em O tronco, se destacaria pela sua relação direta com o poder e a formação social. Entre a historiografia e a ficção, Bernardo Elis tenta se manter no intervalo entre as duas formas, cria o que eu denominaria de narrativa de passagem. Pela aparência de ficção, a história é narrada sem tomar posse da narrativa, faz-se apenas de passagem, como se ocupasse um espaço alheio para se constituir. O autor goiano, em suma, abre mão da forma que lhe é tão cara, a ficcional, para empreender uma narrativa histórico-ficcional, dando provas de que seu comprometimento político, às vezes, sobrepõe os seus interesses como ficcionista.
[1] Tese de Antonio CANDIDO, apresentada em “Literatura e subdesenvolvimento”, em A educação pela noite, 2ed. São Paulo: Ática, 1989, p140-162.
[2] Viana MOOG. Uma interpretação da literatura brasileira, Rio de Janeiro: São José, 1942.
[3] Caio PRADO JR., em Formação do Brasil contemporâneo: colônia, São Paulo: Brasiliense/Publifolha, 2000, nota 4, p.77-8, pondera que “Goiás, apesar de sua aparente, embora curta prosperidade, nunca passara realmente de um pouso de aventureiros que abandonam o lugar logo que as minas começam a dar sinais de cansaço.”
[4] Bernardo ELIS. O tronco, 2ed., Rio de Janeiro: José Olympio, 1967, p.9.
[5] Raymundo FAORO. Os donos do poder, São Paulo: Brasiliense/Publifolha, 2000, v.2, p.258.
[6] Raymundo FAORO. op. cit., p.259-60.